Educação, pertencimento e respeito: como a Busca Ativa Escolar transformou a realidade da comunidade cigana em Sousa (PB)

Por Comunicação

08.04.2026 | Atualizado: 08.04.2026
Educação, pertencimento e respeito: como a Busca Ativa Escolar transformou a realidade da comunidade cigana em Sousa (PB)

Com estratégias de acolhimento e valorização cultural, escola municipal paraibana supera desconfianças históricas, eleva a frequência de alunos para 93% no coração do povo cigano Calon.

O município de Sousa/PB, localizado no Alto Sertão da Paraíba, abriga uma das maiores e mais tradicionais comunidades ciganas da América Latina. Formada por ciganos da etnia Calon, a população resiste há décadas preservando suas raízes, cultura e até mesmo resquícios de seu dialeto. No entanto, a integração plena dessas famílias no ambiente escolar de ensino básico sempre esbarrou em barreiras culturais históricas. Foi para transpor esses muros que a equipe municipal da Busca Ativa Escolar (BAE) e a gestão da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Irmã Maria Iraídes Holanda Lavor abraçaram um trabalho revolucionário, transformando a unidade de ensino no coração da comunidade.

O grande ponto de virada ocorreu no ano de 2022, quando a infrequência escolar passou a ser enfrentada com intersetorialidade, constância, e acima de tudo, profundo respeito pela diversidade cultural da comunidade. 

Há quatro anos, a Escola Irmã Iraídes foi selecionada para ser pioneira na implantação do ensino em tempo integral em Sousa. Para o povo Calon, que valoriza imensamente a presença constante e diária dos/as filhos/as sob os cuidados visuais das famílias e da comunidade, a mudança gerou insegurança. 

"O meu maior desafio, ao assumir a gestão da escola em 2022, foi trabalhar nessa comunidade, numa escola onde estava se implantando o tempo integral", relata a diretora Emídia Oliveira. "Se a comunidade cigana já tem esse diferencial de ter na sua cultura, na sua vivência diária, os costumes de os filhos estarem diante dos pais o todo tempo, imagina só as crianças estarem ausentes o dia todo".

A desconfiança se materializava nos corredores: nos primeiros meses de gestão, muitos pais e mães de crianças ciganas permaneciam do lado de fora da sala de aula, vigiando os/as filhos/as. A consequência disso se refletiu nos números: ao final de 2022, das aproximadamente 160 crianças matriculadas, apenas 43 frequentavam as aulas regularmente.

Para reverter o quadro crônico de infrequência, a escola não cruzou os braços. Em janeiro de 2023, foi desenhado o projeto "Busca Ativa, você tem valor", como parte da estratégia Busca Ativa Escolar, a qual a escola faz parte. A iniciativa exigiu que os profissionais saíssem das salas de aulas para colocar os pés na comunidade de forma constante e afetuosa. A primeira medida foi se aproximar das lideranças locais. Respeitando a hierarquia da cultura cigana, a gestão se reuniu com os quatro líderes da comunidade Calon para firmar um compromisso pela educação das crianças.

Foi criado também um "semáforo de frequência" nas portas das salas. As próprias crianças passaram a monitorar as faltas dos colegas: quando o sinal vermelho acendia por conta das faltas, os próprios alunos se mobilizavam para dar o recado aos vizinhos. Estabeleceu-se ainda um calendário de atuação quinzenal. Em uma semana, a equipe escolar entra em contato com as famílias faltosas via telefone ou na porta da escola, caso eventualmente aparecessem; na semana seguinte, a abordagem é feita através de visitas domiciliares sistemáticas.

"Depois que a gente conseguiu mostrar aos líderes que a gente não quer nada mais do que as crianças na escola, a gente tem a maior liberdade de andar dentro da comunidade", ressalta Emídia. O apoio de funcionários ciganos que trabalham na escola acompanhando a gestão nessas visitas domiciliares também foi a chave para que as portas dos lares, antes fechadas, se abrissem.


BAE em Sousa/PB

O município de Sousa/PB aderiu à Busca Ativa Escolar em 2018. Desde então, a equipe municipal da estratégia já fez o acompanhamento de 271 casos e destes, (re)matriculou 205 crianças e adolescentes, a maioria entre 6 a 10 anos (59,41%). Segundo os dados registrados na plataforma da BAE, 46,86% dos alertas foram feitos pelos/as gestores/as das escolas ou da rede de ensino em razão da infrequência escolar.


Reforço positivo e o salto nos resultados

A estratégia BAE inovou ao não focar apenas na correção das faltas, mas na celebração das presenças. A equipe criou um sistema de "reforço positivo", realizando visitas domiciliares às casas dos alunos assíduos para entregar prêmios de participação, como bolos e doces feitos pelas funcionárias. Tomar um café com a família, tirar fotos e compartilhar nos grupos sociais gerou um orgulho imenso na comunidade. Em casos nos quais o diálogo esgota suas possibilidades — após três tentativas da escola —, é acionado o Conselho Tutelar, mantendo a rede de proteção sempre ativa.

O resultado desse esforço é visível no comportamento das famílias. Se antes os familiares passavam o dia nos corredores, hoje a confiança é total: as crianças são deixadas no portão e os responsáveis retornam apenas no horário de saída. Em números, a taxa de frequência da escola, que abriga hoje cerca de 143 alunos (70% deles da etnia Calon), saltou de 47% em 2023 para impressionantes 93% no final de 2025.

O projeto ganhou tanta credibilidade que ciganos nômades passaram a procurar a unidade para matricular as crianças assim que chegam à cidade. O poder transformador da escola resume-se na história de João, um adolescente de 13 anos de uma família nômade. Ao ver o pai arrumar as malas para viajar novamente, o garoto decidiu ficar morando na casa de amigos em Sousa com um recado claro: "Eu só vou de Sousa quando eu aprender a ler", disse o menino para o pai e a mãe.

Empoderamento das mães e a escola como centro comunitário

A equipe da EMEF Irmã Iraídes entendeu que para manter os alunos em sala precisaria acolher a família inteira e valorizar sua identidade. O espaço escolar foi transformado. Em parceria com centros culturais locais, a escola promoveu o resgate do dialeto cigano local (Xibicalon), montando um coral infantil, e realizou oficinas de pintura em tela. Crianças retrataram seu próprio cotidiano — como as danças ao redor da fogueira —, obras que ganharam as paredes das repartições públicas durante a "Semana do Cigano".

A iniciativa também focou no empoderamento local. Em 2024, através de uma parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) para o programa "Mulheres Mil", 60 mães cujos filhos/as apresentavam frequência escolar assídua foram selecionadas. Elas receberam uma bolsa mensal no valor de 100 reais e a oportunidade de cursar uma formação técnica. A ação entrelaçou o sucesso escolar das crianças com a independência financeira das mulheres Calon.

A escola conta ainda com uma sala de leitura onde, mensalmente, recebe "pessoas que inspiram". São trazidos profissionais de sucesso da própria etnia cigana, como enfermeiras, cantores e desportistas, mostrando às crianças que a educação é a ponte para qualquer sonho.

Apesar dos imensos avanços locais, a gestão escolar esbarra em um desafio estrutural no âmbito federal: a invisibilidade da população cigana nos sistemas oficiais. "Nós temos uma dificuldade imensa porque, para o Censo Escolar, o cigano não existe. Existem o preto, o pardo, o indígena, o quilombola. E por não existirmos no Censo, não recebemos financiamento específico do Ministério da Educação para fomentar a nossa cultura", ressalta a diretora Emídia. “Sem esse recurso, a escola faz um esforço hercúleo, muitas vezes sem apoio financeiro básico, para manter vivos projetos com instrumentos musicais e artes”, destaca.

Mesmo remando contra a invisibilidade estatística, o impacto do trabalho da BAE ultrapassa as planilhas e resgata a dignidade. A recepção da comunidade, que outrora era permeada por desconfiança, tornou-se motivo de gratidão. "É muito difícil uma visita na qual não estou junto. (...) Eu percebo que eles se sentem muito lisonjeados em receber a gente", detalha a gestora escolar. "É como se dissesse assim: tem alguém preocupado comigo".


Imagens: EMEF Irmã Maria Iraídes Holanda Lavor