Dissertação de mestrado aponta que Busca Ativa Escolar é estratégia central para garantir o direito à educação

Por Comunicação

05.02.2026 | Atualizado: 05.02.2026

A equipe de Comunicação da BAE conversou com a pedagoga Carolina Sonntag sobre sua dissertação de mestrado, que pesquisou sobre o impacto da estratégia no enfrentamento da evasão escolar de uma escola pública de Fortaleza/CE


A implementação da estratégia Busca Ativa Escolar (BAE) é responsável pela identificação precoce de alunos em risco de abandono, reduzindo significativamente as taxas de evasãoescolar; e pelo aumento da colaboração entre escola, famílias e a Secretaria Municipal de Educação, o que resulta em maior permanência dos alunos na sala de aula e melhoria na comunicação escola-família. Além disso, as ações intersetoriais da Educação com a Assistência Social e a Saúde – um dos pilares da estratégia – ampliam o alcance da política em comunidades vulneráveis e contribuem para abordagens mais humanizadas das famílias. Em síntese, a BAE é estratégia central para garantir o direito à educação.

Esses são apenas alguns dos resultados positivos que a implementação BAE trouxe para uma escola da rede pública de ensino de Fortaleza/CE. Esses resultados foram identificados pela pedagoga Carolina Sonntag Capelo, que pesquisou a estratégia em sua dissertação de mestrado, intitulada Avaliação do Programa Busca Ativa e seu impacto no monitoramento da frequência escolar na rede municipal de ensino de Fortaleza-Ceará e realizada sob orientação do Dr. Wendell Melo Andrade. 

“Por meio da utilização de metodologia social e tecnologia de ponta, o programa consegue identificar de forma precoce os alunos em risco de evasão e desenvolver ações eficientes para sua reintegração no ambiente escolar. A dinâmica do programa vai além do simples monitoramento da frequência escolar. Ao envolver uma equipe multidisciplinar e estabelecer uma comunicação constante entre a escola e as famílias, a Busca Ativa Escolar fortalece a rede de apoio social, permitindo intervenções personalizadas de acordo com as necessidades de cada aluno. Isso proporciona uma gestão mais eficaz e humanizada, que visa não apenas a frequência, mas também o bem-estar dos estudantes, favorecendo um ambiente educacional mais inclusivo e acolhedor”, escreve Carolina Sonntag em sua dissertação.

A equipe de Comunicação da BAE conversou com a Mestre em Políticas Públicas, pela Universidade Federal do Ceará, para saber mais sobre o estudo e os seus principais achados. Além de realizar análise bibliográfica, a pesquisadora entrevistou gestores escolares, professores e monitores, além das famílias dos alunos atendidos, da Escola Municipal Maria Odnilra Cruz Moreira, localizada na capital cearense, devido à implementação bem-sucedida da estratégia. 

Na dissertação, Carolina aponta que as medidas mais eficazes para fazer as crianças voltarem para a sala de aula envolvem ligações, visitas domiciliares e diálogo com os responsáveis. Já em nossa conversa, realizada via Google Meet na última semana de janeiro de 2026, a pesquisadora afirma que a BAE ajudou a estabelecer uma prática de ações de busca ativa “enraizada e concisa” na rotina dos profissionais de educação.

“O maior benefício é que a gente consegue internalizar um processo [de busca ativa] muito tranquilamente, em que nós diariamente passamos a infrequência para o agente. O agente automaticamente também já está insistentemente nos cobrando e já acionando os pais para saber o motivo da falta. Como eu disse, isso se o pai já não tiver dito o que é que aconteceu. Então, isso faz com que o processo fique muito limpo, muito tranquilo”, resume Sonntag.

“Quem está na prefeitura ou quem está na Educação há mais tempo, como eu – desde 2000 e pouco –, a gente sabe que isso não acontecia. Quando um aluno faltava, ele passava meses para reaparecer, para saber o que foi que aconteceu. E hoje não. Isso é muito mais rápido, muito mais dinâmico”, aponta ainda. 



"A [Busca Ativa Escolar] trouxe uma prática muito enraizada, algo que ficou muito conciso aqui para nós. Já faz parte da nossa rotina. Então, é tão enraizado para nós que dificilmente hoje o aluno não frequenta a escola ou passa mais de três dias sem frequentar". 

Carolina Sonntag



Confira a entrevista que a pedagoga Carolina Sonntag concedeu à equipe de Comunicação da BAE:


BAE – Por que decidiu estudar a permanência escolar?

Fui da Secretaria [Municipal de Educação de Fortaleza/CE] por quase 10 anos, e neste período aceitei o desafio de ser diretora. Passei dois anos [nessa função], o que me trouxe uma bagagem muito importante. Dentro dessa gestão escolar, foi que eu percebi a necessidade [da busca ativa]. Muito mais do que o pedagógico, a gestão acompanha a questão logística, [o que inclui, entre outras coisas, verificar] se os alunos estão frequentando [a escola]. Era uma cobrança muito forte de que os alunos estivessem frequentando.

Essa era uma preocupação muito forte, [especialmente porque] em anos anteriores – década de 80, 90 e anos 2000 –, a gente tinha uma evasão escolar muito forte, muito presente, um abandono escolar muito presente. Após o governo Lula e o Programa Bolsa Família, a escola pública passou a exigir que o aluno esteja matriculado e frequentando para que os pais possam receber o Bolsa Família. 

Inclusive, os pais já, ao longo desses anos, conseguiram introduzir isso na rotina deles. Então, quando um aluno falta, é absolutamente comum os pais irem para a escola e justificarem essa falta presencialmente. Isso é muito bom, porque a gente consegue uma aproximação com a família muito forte. Então, hoje, a gente pode dizer que 98% dos alunos estão frequentando. Isso a gente consegue realmente perceber.

Nós também participamos de avaliações externas, no final do ano, que vai medir se o aluno do segundo, do quinto e do nono ano está alfabetizado. Nós participamos para quê? Para avaliar como é que está esse aluno, se ele já está alfabetizado, como é que ele chegou no quinto ano, como é que ele chegou no nono ano. Para que a gente participe dessa avaliação, é imprescindível que os alunos estejam frequentando [a escola]. Em primeiro lugar, porque se ele não estiver frequentando, ele não vai aprender. Isso é básico. Em segundo, porque se ele não participa da avaliação, ele faz com que a nota da escola e da sala caia como um todo. [Cabe ressaltar que] para a gente conseguir que essas crianças sejam avaliadas e estejam frequentando 100%, é imprescindível essa relação família-escola. 

Como essa é uma preocupação da Prefeitura – que a Secretaria [Municipal de Educação] esteja sempre despontando em notas, em alfabetização –, realmente isso fica muito mais forte e presente perto das avaliações. Mas isso realmente acontece o ano todo, porque o professor também compreendeu isso: se o aluno falta, ele não vai conseguir alcançar o objetivo. Isso para o professor também pesa. 


BAE – De que maneira conheceu a estratégia Busca Ativa Escolar?

Estando na Secretaria, eu pude ser técnica de algo muito específico, que era a busca ativa. Logo que saí da direção, fui para a secretaria a convite de um gestor e assumi essa função. E lá era muito intrínseco essa relação com [a estratégia] Busca Ativa Escolar do UNICEF e da Undime, que nos ajudaram a compreender que  busca ativa ia muito além da escola. O nosso trabalho, enquanto gestores, é tanto no chão da escola, quanto no chão da comunidade.

[Naquela época], recebia listas de crianças que por algum motivo não estavam matriculadas. Como é que chegavam essas listagens? Através da estratégia do UNICEF e da Undime. Qualquer cidadão, em especial aqueles que têm relação com o bem-estar público, por exemplo, um enfermeiro, um policial, um professor, um médico, qualquer cidadão que esteja passando na rua e veja um aluno, uma criança que está pedindo esmola, por exemplo, pode abordar essa criança e encaminhar, conversar com o pai. A orientação do UNICEF era: você aborda, pergunta por que não está na escola e, se tiver um responsável, encaminha.

Vou além: recebi várias vezes, como gestora, responsáveis do shopping Rio Mar para me apresentar uma lista de crianças que adentravam a sua praça de alimentação e pediam esmola. Questionavam se eram alunos, se estavam matriculados. Buscavam saber [com o poder público] por que no contraturno pediam esmola e se a solução era contactar a família ou o conselho tutelar. Então, é mais ou menos isso que a metodologia do UNICEF e da Undime faz também. Essa listagem é enviada para o Ministério Público, que aciona a secretaria, que pode identificar esse quantitativo, se estão ou não matriculadas e o porquê.

E aí, a nossa ação era o quê? Buscar. Aí, nós automaticamente acionávamos os distritos* para saber: por que essa criança não está matriculada? O que foi que aconteceu? Qual foi a última matrícula dela? Cadê o responsável? Vamos acionar o conselho tutelar? Então, é uma rede muito forte para tirar esse aluno da rua, do abandono. Então, é um papel de todos, mas um papel muito forte do UNICEF e Undime, da secretaria e de nós gestores.


BAE – Na sua vivência e estudo, que vantagens a metodologia do UNICEF e da Undime trouxe para o trabalho de busca ativa e para a educação de crianças e adolescentes? 

Assim, eu acho que trouxe uma prática muito enraizada, algo que ficou muito conciso aqui para nós. Já faz parte da nossa rotina. Então, é tão enraizado para nós que dificilmente hoje o aluno não frequenta a escola ou passa mais de três dias sem frequentar.

O maior benefício é que a gente consegue internalizar um processo [de busca ativa] muito tranquilamente, em que nós diariamente passamos a infrequência para o agente. O agente automaticamente também já está insistentemente nos cobrando e já acionando os pais para saber o motivo da falta. Como eu disse, isso se o pai já não tiver dito o que é que aconteceu. Então, isso faz com que o processo fique muito limpo, muito tranquilo.

Quem está na prefeitura ou quem está na Educação há mais tempo, como eu – desde 2000 e pouco –, a gente sabe que isso não acontecia. Quando um aluno faltava, ele passava meses para reaparecer, para saber o que foi que aconteceu. E hoje não. Isso é muito mais rápido, muito mais dinâmico. 

O coordenador [pedagógico] também está muito presente nesse processo, e não só investigando a infrequência, mas também está acompanhando o desenvolvimento desse aluno. Então, ele é peça também fundamental nesse acompanhamento pedagógico, para saber se esse aluno está faltando, por que ele está faltando e a infrequência dele causou o quê no processo de desenvolvimento dele.

Então, você vê, não é simplesmente a falta ou não falta. É toda uma rede que está por trás, atenta a essa questão, e não só isso: é [também] o aprendizado do aluno.


BAE – No período que participou da estratégia, como era a intersetorialidade? Havia um bom entrosamento entre as secretárias e outros órgãos da rede de proteção?

O que nós temos é uma ligação muito forte com o posto de saúde. O posto de saúde está sempre ao lado da escola, muito próximo da escola. Então, o coordenador do posto passa [as informações] para o gestor e o gestor passa para o diretor e o diretor também passa para o coordenador do posto o que está acontecendo, se o aluno faltou e qual a necessidade dele. Então, essa ligação é muito forte. Outra ligação muito forte é com o conselho tutelar, que a gente consegue recorrer em casos mais graves. 


*Para facilitar a administração, o acompanhamento pedagógico e a logística das escolas municipais em diferentes bairros, a Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza/CE divide, territorialmente, a cidade em 12 distritos, cada um vinculado a uma Secretaria Executiva Regional (SERs). Cada distrito/regional atende a um conjunto específico de bairros, garantindo que as demandas locais sejam atendidas com mais agilidade.